A construção, por Fernanda Moreno

O sol batia em sua janela e na tela do seu computador, ela tinha finalizado o livro que agora estava na cabeceira do seu quarto. Martina chorou, chorou ao perceber que o narrador descrevia exatamente a sua história, ou a falta dela. Ela entendeu naquele momento que era necessário escrever tudo aquilo que nunca foi contado sobre o seu pai. Ele jamais foi protagonista de seus enredos, a mãe nunca deu espaço, pois por um bom período ela foi inspiração para páginas e conversas em um divã cinza. E o seu pai? Porque ele não aparecia em seus escritos? Medo? Respeito? Negação? Talvez, mas Martina percebeu que a ausência na verdade era falta. Ela não podia dar protagonismo para um personagem sem lembranças e por isso resolveu inventar a própria memória para o seu pai. Ela o chamará de Santiago. Isso. Santiago. Ele nasceu no interior de São Paulo, tinha três irmãs menores. Era o mais velho e o mais inseguro, sua mãe se chamava Amélia e seu pai José, cozinheiro de um restaurante de beira de estrada.  Santiago Machado era o seu nome completo, foi negado o nome da mãe, pois ela também de alguma forma o renegou. Aos 7 anos ela vendeu sua bicicleta para comprar uma garrafa de cachaça e dois limões. Ele chorava todos os dias, não pela perda da bicicleta, mas pela falta da sua mãe, ela estava ali, mas ao mesmo tempo não estava. Nunca esteve, até que numa manhã de sol ela desapareceu e uma mulher mais nova tomou o seu lugar. Santiago continuou sozinho, mesmo acompanhado de sua família. Não havia mais espaço para as lágrimas, o choro lembrava a mãe e ele se negava a acessar essa memória e por isso recusava-se a falar sobre ela. 
Martina se deu conta: o seu pai deveria ter tido uma vida difícil para nunca ter falado dela. Ela começou a lembrar da praia, da bicicleta sem rodinhas, e do tombo que os dois levaram ao chocarem-se com os tijolos naquela construção. Lembrou também da cicatriz do seu joelho esquerdo que carrega até hoje com orgulho. Foi um momento extraordinário para ela, mas se a ficção recentemente criada fosse verdade e aquele ensinamento fosse um martírio, uma violência para o pai? Ele abdicou da sua tristeza para criar uma lembrança feliz para a filha. A sua casa da praia hoje abriga um prédio de 10 andares. Mesmo soterrada pelos alicerces de concreto, eles sabem que o terreno é o mesmo. Martina salva o conto e envia para o pai. Neste exato momento os dois choram ao telefone. 

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