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Mostrando postagens de junho, 2020

Nem te amo mais, por Mariana Marques

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Oi Rodrigo, deixei suas coisas separadas, no cantinho da sala, tudo que é teu tá lá, só te peço uma coisinha, por favor, não leva a gata. Cansei de te falar mil vezes que ela gosta mais de mim do que de ti, ela dorme comigo, do meu lado da cama, eu que dou ração para ela todos os dias, e água no pote certo, ela me ama. Esses dias eu a vi tentando falar que me ama. Juro que não tô ficando maluca, ouvi ela gritar te amo no idioma dos gatos. Tu sabia que existe um idioma de gatos? Pois é, tenho certeza que não, porque tu não sabe nada sobre gato, e mais, o filho sempre fica com a mãe, uma vez eu ouvi isso e tenho a maior certeza que é verdade. Logo tu vai arrumar outra pessoa que tem gatos também e quem sabe sei lá, tu encontre uma gata melhor pra ti, que faz mais o teu tipo e essas coisas. Eu sei que já tenho o Luquinhas, mas me diz Rodrigo, como a gata vai viver longe do irmão? Ein Rodrigo? Não tem como. Luquinhas vai morrer de saudade, eu não tô preparada para lidar com isso. Já pro...

Rubrica, por Marcelo Ádams

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( Sala ampla de apartamento, com duas grandes janelas ao fundo, uma delas aberta, deixando passar uma leve brisa, constatada pelo movimento das hélices da miniatura de um moinho de vento que está pendurado do lado de fora. A luminosidade que vem da rua é intensa. Junto às janelas, cortinas totalmente abertas de um tecido pesado, talvez um brocado em dourado. No centro da sala, com o encosto virado para as janelas, um sofá de quatro lugares, forrado em tecido cor vinho ou azul marinho, com pés torneados na forma de patas de leão. De cada um dos lados do sofá, visto frontalmente, estão mesinhas redondas em ferro batido e com tampos de mármore rosados. Sobre a mesinha da esquerda, um porta-retratos, em prata brilhante, mostra um homem e uma mulher bem vestidos, abraçados, tendo como fundo o mar azul. Ao lado do porta-retratos, uma miniatura de uma camionete vermelha Ford Pick-up dos anos 1930. A mesinha do lado direito contém outro porta-retratos, semelhante ao da mesinha à esquerd...

Sexto andar, por Tiago Martinelli

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Seis carros brancos. Quatro cachorros. Sete mulheres vestindo casaco preto. Onze homens de terno. Cinco carros vermelhos. Seis sinais de buzina. Uma ambulância. Essas eram as lembranças de Cátia, que esperava o seu pranto passar, sentada na escadaria do seu prédio. Cátia chorava muito e não sabia o porquê. Tentava pensar em tudo o que poderia fazer para que esse choro passasse, até mesmo contar os carros, pessoas e cachorros que passavam pela rua. Mas isso era totalmente inválido. Braços cruzados, cabelo na frente do rosto e um sentimento de vazio. A sacola do mercado ao seu lado com quase um quilo de maçãs verdes. Cátia não gosta de maçã verde. Foi ao mercado apenas para passar o tempo e tentar se distrair. Ação que não deu resultado, ou ao menos não o resultado esperado. Já são quase 5 horas da tarde, Cátia enfim se recompõe e toma coragem para subir ao seu apartamento. Apanha sua sacola de maçãs verdes, levanta e entra no prédio. Aperta o botão para chamar o elevador e agua...

Bidimensional, por Marcelo Ádams

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Oi meus amores, tudo? Tudo! Então, hoje eu quero fazer um depoimento... Não, como é que se diz, é dar ou fazer depoimento? Às vezes eu me confundo um pouco nos verbos, mas quem nunca, né? Eu acho que o mais importante é a gente se comunicar, fazer a mensagem da gente chegar na outra pessoa, é isso que importa. Se tem errinho, coisinha, pá pá pá, isso com certeza é mi mi mi. O que vale é a gente trocar ideia, fazer a outra pessoa feliz, deixar quem tá aí do outro lado com o coração um pouquinho mais quentinho. Eu sempre pensei assim, e vou continuar pensando do mesmo jeito até morrer. Porque eu acho o seguinte: quando a gente vem ao mundo, a gente vem com uma missão, né? E a gente escolhe se vai cumprir essa missão pra fazer do mundo um lugar melhor, porque missão dada é missão cumprida, ou se vai fechar os olhos pro chamado que recebeu e continuar sendo essa pessoa egoísta, que só olha pro seu umbigo, que não quer ajudar nada nem ninguém. Eu digo pra vocês, eu não conseguiria ser as...

A liberdade é azul, por Mariliza Tavares

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Há algum tempo ele habitava o local, uma espécie de vidro minúsculo com uma circunferência aberta na borda superior. Formavam um belo contraste, o recipiente com sua transparência quase imperceptível e o morador do vidro dono de uma pele azul petróleo, que por meio do material em seu envolto, tornava mais evidente o seu tom azulado. Era obrigado a viver tão próximo da vidraça, que qualquer espécie de liberdade se perdia. Às vezes ele parecia estar suspenso no ar, permanecia imóvel e pousava seu olhar no vidro por longo tempo. Em outros momentos ficava muito agitado, deslizava de um lado para outro pensando: “Não sou parte desse recipiente imóvel, sem cor, sem espaço. Não sou! Não sou! Quero voltar a ser livre!" Naquela noite, seus pensamentos se igualavam à tempestade sem trégua que inundara o esgoto do seu condomínio, misturando-se às águas do Rio dos Sinos, nas proximidades. Era o universo conspirando a seu favor. Desceu ralo abaixo, escapando entre os dedos de sua dona ...

Falsa, por Mariana Marques

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Acordei decidido, naquela manhã fria, de que iria fazer algo por mim. Nada de pantufas, de pijama o dia todo. A vida estava ali, olhando para mim, fazia meses, e eu burro, não fazia nada. Ela estava me convidando para tomar um vinho barato no meio-fio com os meus amigos, ansiosa para ir comigo num barzinho com música ao vivo, tomar aquele chopp e quando me desse por conta, estaria cantando junto com os artistas. Ela estava me convidando para levantar e estudar o espanhol que sempre quis aprender, estava querendo me ver agradecendo por estar vivo e apaixonadíssimo mais uma vez, e mais quantas vezes o universo me permitir. Queria me ver transando com aquele homem que eu só enrolo, faz meses. Quando foi que parei no tempo e comecei a cavar minha própria cova? Sei que essa pergunta chega para todos, mas nunca pensei que um dia chegaria a minha vez.  Será que a idade pesa e a vida vai perdendo a graça? Eu vejo os adolescentes nas festas, de dentro do meu carro escuro, com o ar-cond...

A luz de Alzira, por Tiago Martinelli

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Alzira acordava com o despertador que não era seu, vinha do apartamento debaixo do dela. Caio era o morador do primeiro andar. Alzira, também como Caio, esperava o silêncio com o silêncio. Tentava se manter em total e absoluta mudez para sentir um pouco de casa cheia, por mais que não fosse a sua. No seu dia repleto de minutos de total inércia, havia 56 deles que para ela, eram os únicos aproveitáveis. Das 11:30 às 12:26 o sol entrava pela sua janela... 3 minutos antes, ela pega o seu protetor solar, abre e passa pelo seu rosto e mãos, ouviu que era importante passar nas mãos também, pois nas mãos é que a idade da mulher é percebida. A luz que entrava pela janela e preenchia um lado de seu sofá, um lugar exatamente pensado para curtir a vitamina D. As buzinas e barulhos de engrenagens dos carros que passavam na rua de seu apartamento, aliados à sensação de prazer ao ser iluminada fazia uma espécie de transe em Alzira. Ela amava sentir isso, era sua alegria diária. Só não era bom qua...

você ri. (e eu não enxergo muito por dentro do mar luminoso), por Stefanie Loyola

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eu estendo minha mão, tá tocando sem nome, mas com endereço da Liniker. eu coloco minha mão na sua cintura. era pra gente ter saído pra uma peça de teatro. tu coloca a mão envolta do meu pescoço. o meu celular pifou e eu não sabia mais que endereço era. a gente ri alto de estar fazendo algo tão bonito. você também tava sem celular. você também olhava dentro dos meus como se tivesse alguma certeza. é de noite, achei perigoso sair sem nada. a gente começa um dois pra cá, dois pra lá, três pra algum lugar e quatro pra qualquer outro. a gente não para de rir e de repente o clipe da música tá projetado entre nós. e enquanto eles se movem dentro da água, a gente flutua em uma galeria de arte amadora.  o riso parece com aquele quando a gente se encontrou pela primeira vez.  a forma com que a gente tava entrelaçada foi igualzinho àquele show do Jorge Ben Jor que  a gente não sabia que era dele, mas ficamos até quase a última música. o olhar era o mesmo dos corr...

As atualizações estão prontas para serem instaladas, por Mariliza Tavares

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O alarme havia sido acionado há muito tempo. Era como se o corpo já não mais existisse. A mente ficava com espaços em branco por alguns momentos, quando voltava a dar comandos eram as pernas que não suportavam o peso do corpo, o coração mal conseguia sincronizar as batidas, a fala pesava toneladas e saía da boca arrastada pela língua. Muitas vezes o sono não chegava em fases, ele simplesmente se instalava feito um “boa noite Cinderela” e o corpo permanecia em estágio de morte por longos períodos. O grande responsável pelo seu surgimento é o trabalho de forma repetitiva, demandando grande competitividade e muita responsabilidade. Os sinais iniciais chegam sutilmente, como  pequenas dores de cabeça, algumas noites mal dormidas, alterações no apetite e progressivamente a intensidade vai subindo até as dores de cabeça tornarem-se insuportáveis, severos problemas gastrointestinais e o excesso ou falta de sono. A sensação é a de ter a energia física e mental sugadas e o corpo ati...

Prazer!, por Tiago Martinelli

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         Não me defina ainda, deixe eu me apresentar primeiro. Sou um ser humano, que passa por você na rua, no banco, na padaria. E em todos esses lugares você acaba me julgando, sempre mais que os demais. Ah, prazer, eu sou o Caio. Eles dizem que eu tenho que ser assim, simplesmente assim. Por dentro pouco importa, o que importa é o corpo, a forma. Eu tenho que ser assim, simplesmente assim, para sentar uma cadeira de plástico, para passar em uma roleta, para caber em uma calça. Tenho que ser assim, simplesmente assim, para trabalhar em uma loja, para apresentar um trabalho. Tenho que ser assim, simplesmente assim, para ser um ator, para ser um artista. Você acha mesmo? Acha que isso irá diferenciar a minha arte? Acha que eu não posso amar, ah e pior, acha que eu não possa ser amado? Acha mesmo? Mas não se preocupe, isso é uma construção social, vocês não são culpados disso, e obviamente nem eu. Podemos ser culpados mas nem nos damos conta disso, assim,...

Coro concreto, por Marcelo Ádams

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Já ouviu falar naquela teoria do copo meio cheio ou meio vazio? Nem sei bem se dá pra chamar de teoria, acho que teoria tem que ser mais complexa, mais profunda, sei lá. Não vou chamar de teoria então, melhor dizer que é uma maneira de olhar pro mundo. Tem gente que olha pro copo e acha que ele tá meio cheio, já que tem água até a metade. Outros vão olhar pra esse mesmo copo e dizer que é óbvio que ele tá meio vazio, já que tem água só até o meio. Por isso que eu digo que é uma maneira de olhar pro mundo, pois o copo é o mesmo e a água é a mesma. O que muda é o que eu quero ver, o que eu me esforço pra ver. D á pra usar essa ideia, essa de que eu vejo o que eu quero ver, pra um monte de coisas, pra vida, pra quase tudo. Por exemplo, se eu tô saindo com alguém, e esse alguém me troca por outro alguém. O pessoal do copo meio vazio vai dizer que foi uma puta sacanagem ter levado um pé na bunda. O pessoal do copo meio cheio vai dizer que foi só porque você levou o pé que conheceu um a...

Não fale a palavra negativamente, por Fernanda Moreno

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A – Estamos há mais de três horas aqui! B – Para falar a verdade seriam duas horas e meia. A – Que seja.  B –  Ele não vem? (A dá um tapa na boca de B por falar a palavra NÃO) A – Você pronunciou a palavra negativamente proibida. B – Eu sei, mas eu – palavra negativamente proibida, consigo me acostumar.  A – Você – palavra negativamente proibida entende. ELE CRIOU regras e nós temos que obedecê-las. B – MAS, eu – palavra negativamente proibida aceito. A – Você quer continuar respirando este ar oco? Obedeça. Não há recompensa para a rebeldia. ( B dá um tapa em A) B – Você FALOU. Seu nome agora também está na lista. Há homens nos vigiando. ( Falando baixo) Eles sabem de tudo e vão falar para ELE. A – Mas foi um equívoco, um descuido, palavra negativamente proibida me acostumei. Palavra negativamente proibida, posso ter meu nome nessa lista. B – Assim como eu, seu nome está carimbado em azul cobalto em uma folha branca que cheira a á...