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Mostrando postagens de julho, 2020

Desabafo, por Mariana Marques

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QUERIDOS AMIGOS DA INTERNET, desde que ganhei uma irmãzinha, que nem gosto de chamar de irmã. Espera aí, deixa eu começar de novo. Desde que essa desgraça de gata chegou aqui para tentar dominar meu território, minha vida se transformou num inferno. Então pensei: se ela quer tomar minha propriedade, vou mostrar para ela quem é o dono dessa casa. Minha humana comprou essa casa para mim quando cheguei aqui e há poucas semanas atrás ela construiu uma de papelão bem pequena, creio eu que seja para ela, pois nunca vou entrar lá. Vi que ela amarrou umas bolinhas que fazem barulho acreditam? Ora que absurdo, ela sabe muito bem que repudio qualquer tipo de som alto. Humana incompetente essa. Enfim, como estava contando, ela comprou essa casa, mobiliou e um servo meu me trouxe para cá. O que me irrita, e quero deixar bem claro aqui, é que ela trouxe outro ser igual a mim. Logo eu que sempre achei que fosse o único gato charmoso e intelectual do planeta Terra, me deparei com ela.  A...

Imposição, por William Andrius

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Eu aguardo a porteira se abrir, com o peão já montado em mim, um pássaro aterrissa em um dos meus chifres, ele é espantado pelo homem, antes de sair para a arena há barulho vindo das arquibancadas, as ondas sonoras chegam aos meus ouvidos causando um desconforto que aprendi a controlar, das suas bocas saem o som dessa palavra que decidiram pra me nomear, não é meu nome, isso não significa nada pra mim, eu não reconheço a mim mesmo por essa nomenclatura imposta. O homem ao microfone berra algumas palavras, ouço meu suposto nome, um súbito choque na minha perna é o estímulo dos humanos antes da porteira se abrir, é iniciada mais uma competição homem versus touro, o homem não resiste por três segundos, cai abaixo de mim, logo levanta e sai correndo. Aproveito esse breve momento de liberdade para trotear, aguardo alguém vir me buscar e me levar contra vontade, é noite mas avisto pássaros voando em união no céu, abdicaria da minha força, da minha fúria, do meu tamanho, do meu peso, dos...

Eu vejo um círculo de luz, por Tiago Martinelli

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Há  um círculo de luz Somente por ali que defino dia e noite Chuva e sol É uma prisão: lacrada, fechada e armada A comida é farta e a bebida também Quando lembram que eu também sinto fome e sede Aqui sou impedido de fazer o que nasci pra fazer Até me preparo e me arrisco Mas bato e caio Subo as escadas lamentando a minha impossibilidade Volto para o meu mundo em um círculo de luz Onde fantasio  minha existência fora daqui Cantando, comendo e bebendo Passo os dias esperando pelo nada Repetindo tudo E uma das  coisa s   que são certas é  a imagem quadriculada do Círculo de luz.

Vocês usam o meu nome pra falar do tufo de pelos debaixo do lábio inferior, por Marcelo Ádams

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Daqui de cima eu vejo tudo super bem, o ângulo aberto ajuda, claro. Os “mil olhos” que vocês dizem que eu tenho na verdade são os omatídeos. Tipo, eu tenho uns quatro mil desses, e cada um me ajuda a enxergar quase 360 graus. Isso significa um giro completo, pra quem não entende de trigonometria. Por isso é tão difícil me pegar, porque quando vocês estão pensando em levantar a mão eu já tô lá do outro lado da sala. Omatídeos, vejam só. Omatídeos é uma palavra estranha, não fui eu que inventei, eu sempre lembro de ovo, omatídeo, ovo... mas eu peguei pra mim, assim mesmo. Não vou ficar explicando tudo, porque só quem enxerga como eu sabe como é. Lugar de fala. Basta vocês saberem que eu enxergo bem pra caralho. Tá, desculpa aí, já tô me perdendo em devaneios. Eu sou assim, fazer o quê. Nasci cheio de devaneios e de omatídeos. Eu não vivi muito, comparando com a idade do planeta, mas posso dizer que minha experiência de quase três semanas de existência me autoriza a tirar algumas c...

Conexão ou delírio?, por Mariana Marques

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Estávamos todos dançando loucamente com os olhos fechados. Senti meu coração pulsar forte, abri os olhos, tudo girava muito rápido. A música entrava em mim, já não sabia diferenciar os sons. O grave entrava na minha cabeça, percorria meu corpo inteiro. Calor, muito calor. Avistei ela do outro lado da sala escura. Apenas uma luz piscando. Sede. Minha visão estava ficando turva. Decidi pegar mais uma cerveja. Passei por umas pessoas que estavam cheirando anestésico. Alguém me chama. Acho que tá na hora de parar com a bebida. Sorri com olhos fechados, mas quem disse que eu conseguia abrir os olhos? Tô bem, tô ótima. Continuei. Não sentia meu corpo, que delícia não sentir o corpo. Quanto tempo fazia que eu não ficava assim? A única coisa que me veio na cabeça naquele momento era “por que demorei tanto tempo para ficar assim outra vez?”. Peguei a cerveja. Batida da música entrava em mim, saía de mim. Senti alguém colocar um fone no meu ouvido, daí não sabia mais onde estava. Lembrei daqu...

Chama pelo meu nome, por Fernanda Moreno

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Queria ser estimação de alguém,  ser  particular, exclusivo, desejado... estimado. O seu  rest o é a minha fome, minha amiga.  Eu gostaria de estar um lugar quente, Mas você me força e  me empurra  para lugares  escuro s  e escusos,    tenho  medo e sobrevivo  Entranha.. Me e stranha. Você me hospedaria?  Seria minha casa e abrigo? Me convida para entrar com a sua permissão.  Eu prometo me comportar e crescer apenas pela sua vontade.  Eu queri a ser um  bicho  simplesmente  Mudar o  “a” pelo “o” Batizado. Único e exclusivo, animal estimado.  Classificado, saindo pela sua boca  m ole e m deslizes e debates Solium Me chama pelo meu nome:  Bicha, l ombriga ,  larva , verme , parasita , doença ... Meu olhos  não vêm,  mas  meu coração sente.

Sobre perder ou eu, tu e o tempo que não existe mais, por Stefanie Loyola

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existe o farfalhar das folhas de uma palmeira, o sol penetrando sua pele lentamente e à sua frente a janela do seu vizinho fechada. A endorfina baixando lentamente, enquanto você balanga na rede. Os problemas do mundo parecem menores, baixinhos, sabe? Você olha pra laranjeira do outro vizinho que tem uma casa mal cuidada, mas um jardim com várias árvores frutíferas esplendorosas, volta e meia vejo ele no jardim, mas nunca na frente da casa. Outro dia eu vi a bananeira dele quase vindo pro meu lado do prédio, confesso que fiquei pensando será que se na calada da noite eu levar só umas, ele vai se importar? às vezes quando eu perco coisas tipo oportunidades, dinheiro, um projeto que eu queria muito, uma pessoa, eu tento não me importar. programo minha mente para nem chegar perto do ocorrido, mesmo que em busca dele eu tenho perdido semanas, dias, horas, minutos de ansiedade que eu não posso realmente ter um resultado completo do que foi a minha espera e como ela foi no meu corpo...

Ocorrência, por Marcelo Ádams

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Quebro o dedo indicador da mão esquerda com a batida da porta do carro que me deixou bem em frente ao lugar que eu queria ir. Não sei o que fazer, porque após o susto inicial da batida, seguida de um gemido meu, abafado, fico sem ação, vejo o carro seguindo em frente primeiro bem devagar, depois com velocidade, provavelmente para pegar o próximo passageiro na quadra seguinte. Olho pra fachada do prédio, já está bem escuro, quase-noite, e de uma janela basculante no segundo andar sai uma luz forte, fluorescente fria. Perco toda vontade de entrar e olho pro dedo, já arroxeado e pulsante, mas indolor. A umas oito ou nove quadras fica o Pronto Socorro, dá pra ir caminhando? Decido que sim, porque ainda é cedo, porque o bairro não é tão perigoso, porque eu prefiro não falar com ninguém agora, porque eu tenho que pensar. Com tantas árvores nos dois lados da calçada, a luz dos postes de eletricidade não dá conta de iluminar tudo-tão-bem-o-tempo-todo. De vez em quando, apesar de caminha...

As perguntas que a gente só faz em dias especiais nos textos de comemoração do Facebook, por Stefanie Loyola

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                                  Eu te encontrei em uma lancheria pra almoçar quase três horas da tarde. Meu colega começou a contar tudo que eu não falava pra ti. Você achou engraçado e até mesmo se sentiu vingada em saber que eu tava morando com um alcoólatra desagradável, enquanto teve que me aguentar com meus problemas de bebida aos dezesseis. E eu achei sinceramente que você iria julgar mais e deixar claro tudo que você via se repetindo ali. É que existe algo no entrelaçar das coisas, no entre, sabe. Tipo as coisas que acontecem entre as frestas, entre os vãos, entre dois corpos se chocando, entre mil ideias que não fazem sentido juntas como essas que escrevo. Eu realmente acho que acontece algo no entrelaçar. E entre eu entender como nosso amor funciona ou não, o sofrimento foi grande. Eu achava que você ia julgar mais. Mas entre-tanto você questionou "será que ele não precisa d...