Venda proibida, por Tiago Martinelli
“...Agora assiste aí de camarote, eu sendo vendido com e sem receita...” Era uma cantoria a tarde toda. O cabisbaixo ibuprofeno já estava cansado dessa música que vinha da prateleira ao lado. O paracetamol debochava da caixa dele por causa da pandemia que o impedia de ser receitado. O ibuprofeno estava parado na prateleira há dias. Quando avistava alguém adentrando a farmácia, ele já começava sua reza diária: Pai nosso que estás na Anvisa, encapsulado seja a vossa fórmula, venha a mim a próxima receita, seja feita nessa dosagem, assim na febre quanto na dor... E ele só ouvia as risadas do paracetamol ainda mais altas. Não fique assim Ibu, eu sei que você vai ser receitado em algum momento. Aquela voz doce vinha da parte de cima das prateleiras. Era a Ive, a ivermectina que estava sendo receitada para gripe e até então pensava que só servia para acabar com os piolhos e sarnas. Sua surpresa foi grande quando começou a ser receitada e tentou de todas as formas acalmar o seu amigo...