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Mostrando postagens de maio, 2020

Venda proibida, por Tiago Martinelli

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“...Agora assiste aí de camarote, eu sendo vendido com e sem receita...” Era uma cantoria a tarde toda. O cabisbaixo ibuprofeno já estava cansado dessa música que vinha da prateleira ao lado. O paracetamol debochava da caixa dele por causa da pandemia que o impedia de ser receitado. O ibuprofeno estava parado na prateleira há dias. Quando avistava alguém adentrando a farmácia, ele já começava sua reza diária: Pai nosso que estás na Anvisa, encapsulado seja a vossa fórmula, venha a mim a próxima receita, seja feita nessa dosagem, assim na febre quanto na dor... E ele só ouvia as risadas do paracetamol ainda mais altas. Não fique assim Ibu, eu sei que você vai ser receitado em algum momento. Aquela voz doce vinha da parte de cima das prateleiras. Era a Ive, a ivermectina que estava sendo receitada para gripe e até então pensava que só servia para acabar com os piolhos e sarnas. Sua surpresa foi grande quando começou a ser receitada e tentou de todas as formas acalmar o seu amigo...

Tona, por Marcelo Ádams

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Ela explicou que passariam cautelosamente por sobre a cerquinha baixa, cuidando bem se não havia pontas de pregos ou lascas de madeira viradas pra cima, que com coisa pontiaguda não se brinca, porque depois do corte vem o tétano, Deus o livre. As pernas de ambos eram pouco longas para ultrapassar numa única pernada o lado de cá e chegar do lado de lá do enfileirado de ripas irregulares com o pé firme no chão de terra. Ele, por ser muito jovem, filho de pais que legaram pernas apenas normais para um guri de 8 anos. Ela, assim como o neto, não fugira às características familiares – em seu caso, confirmada pela ideia fortemente disseminada de que, antigamente, as pessoas eram mais baixinhas, cabendo às próximas gerações o encompridar progressivo das pernas. Sendo assim, pensava, no futuro haveria um mundo habitado por gigantes. Do lado de cá assentou um tijolo de seis furos, refugo de obra feita em uma das duas casas que havia no próprio terreno onde moravam (talvez a construção do ...

As outras de nós, por Mariliza Tavares

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Acordei assustada, talvez angustiada, nem sei bem definir o sentimento, mas a sensação sim. Coração acelerado querendo sair pela boca, uma inquietude. Pulei da cama e fui apressada olhar para o aparelho quadradinho, 4 horas pontualmente, silêncio mortal, parece que o mundo petrificou. Meu corpo está exausto, mas algo dentro de mim permanece incansável. Respiro e me pergunto: Por que estou me sentindo assim? Logo hoje, havia planejado dormir até mais tarde. É sábado e a semana foi tão difícil! A mente resolve me acordar de sobressalto, mas precisa ser exatamente nessa hora da madrugada? Quando tudo está morto, até meu corpo  paralisado, meus pensamentos chegam avassaladores com muitas perguntas. Como estão as outras de nós nesse momento? Em que situação estão as mulheres do mundo? Penso em mulheres violentadas e afastadas de seus lares, ao serem retiradas de suas moradias pelo auxílio da força policial  e  recolocadas em casas-abrigo. Um cenário de dor, sem planej...

A construção, por Fernanda Moreno

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O sol batia em sua janela e na tela do seu computador, ela tinha finalizado o livro que agora estava na cabeceira do seu quarto. Martina chorou, chorou ao perceber que o narrador descrevia exatamente a sua história, ou a falta dela. Ela entendeu naquele momento que era necessário escrever tudo aquilo que nunca foi contado sobre o seu pai. Ele jamais foi protagonista de seus enredos, a mãe nunca deu espaço, pois por um bom período ela foi inspiração para páginas e conversas em um divã cinza. E o seu pai? Porque ele não aparecia em seus escritos? Medo? Respeito? Negação? Talvez, mas Martina percebeu que a ausência na verdade era falta. Ela não podia dar protagonismo para um personagem sem lembranças e por isso resolveu inventar a própria memória para o seu pai. Ela o chamará de Santiago. Isso. Santiago. Ele nasceu no interior de São Paulo, tinha três irmãs menores. Era o mais velho e o mais inseguro, sua mãe se chamava Amélia e seu pai José, cozinheiro de um restaurante de beira de es...

Carta para alguém de algum lugar, por Mariana Marques

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Os dias por aqui duram 24 horas. As pessoas mastigam os alimentos e são absurdamente críticas. Elas representam a vida em locais fechados e com plateia, cortam lenha para fazer fogo, dançam mexendo o corpo num ritmo frenético. Elas criam e escutam músicas. Juntam letras e formam palavras. O sol por aqui é quente demais, porém, em certas épocas ele quase não consegue esquentar. Acabei encontrando desde muito cedo quatro pessoas que estão comigo até hoje, e depois de 20 anos conheci mais uma que provavelmente ganhou um vale-vida. Entendi da pior forma o que é a culpa e sofri anos por isso. Nesse período descobri que dá para amar, sofrer por amor e até ficar doente por conta dele. Muitas vezes quando estou assistindo TV, penso como estão as coisas por aí, não me lembro de nada, esqueci completamente o que vivi. Ainda me sinto estranha quando penso em jantar e ter que mastigar o alimento, mas logo isso passa. Eu me acostumei a viver por aqui, mesmo que as pequenas coisas do cotidiano me...

A dificuldade principal era abrir a garrafa de vinho, por Marcelo Ádams

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A dificuldade principal era abrir a garrafa de vinho, dessas com rolha de cortiça, não das que têm uma rosca abre-fácil, porque estas últimas, dizem, não conservam tão bem o líquido, não sei se por má vedação ou se pelo fato de que o conteúdo entra em contato com materiais diferentes em cada um dos casos, afetando, assim, sua química, o que, imagino, pode alterar bastante o gosto das coisas, coisa que, definitivamente, não parece ser uma boa ideia quando isso acontece sem que o queiramos, pois a surpresa do sabor modificado à nossa revelia é como uma faca de dois gumes, ou como uma moeda de duas faces, ou como um país polarizado politicamente, considerando que esses três exemplos de ambivalência apresentam dois lados que, agora segundo a Física, se excluem mutuamente e irreconciliavelmente, mas que, paradoxalmente, ou, usando uma palavra talvez menos carregada de contundência acadêmica, curiosamente, ou, usando uma palavra menos neutra politicamente, perceptivelmente, oferecem vant...

Naquele dia feliz, por Tiago Martinelli

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Caio  tinha manias e acredit ava em ditados populare s.  E ra solitário. A guardava o silêncio com o silêncio enquanto bebia um café preto requentado e fumava seu Derby vermelho lentamente. As luzes de cada apartamento ao seu redor ligavam e desligavam. Caio  estava parado,  sem uma expressão sequer em seu rosto. Seu pensamento dançava de um canto a outro, procurando por seu melhor dia ou qualquer outro que fosse melhor do  que aquele em que estava. Veio  em sua memória o dia em que tinha uns 8 anos. Acordou com o sol batendo em sua janela e com conversas vindas da cozinha. Uma voz chamou sua atenção no momento em que ouviu. Era sua avó, ele tinha certeza. Levantou da cama, colocou os chinelos e já começou a correr em direção à cozinha e a voz conhecida. Era ela, sua  a vó, sua amiga. Cabelos brancos, sentada, abriu os braços e o chamou. Ele havia parado a corrida quando a viu, mas logo já foi em sua direção. O abraço foi longo e de tanta emoção,...