A dificuldade principal era abrir a garrafa de vinho, por Marcelo Ádams
A dificuldade principal era abrir a garrafa de vinho, dessas com rolha de cortiça, não das que têm uma rosca abre-fácil, porque estas últimas, dizem, não conservam tão bem o líquido, não sei se por má vedação ou se pelo fato de que o conteúdo entra em contato com materiais diferentes em cada um dos casos, afetando, assim, sua química, o que, imagino, pode alterar bastante o gosto das coisas, coisa que, definitivamente, não parece ser uma boa ideia quando isso acontece sem que o queiramos, pois a surpresa do sabor modificado à nossa revelia é como uma faca de dois gumes, ou como uma moeda de duas faces, ou como um país polarizado politicamente, considerando que esses três exemplos de ambivalência apresentam dois lados que, agora segundo a Física, se excluem mutuamente e irreconciliavelmente, mas que, paradoxalmente, ou, usando uma palavra talvez menos carregada de contundência acadêmica, curiosamente, ou, usando uma palavra menos neutra politicamente, perceptivelmente, oferecem vantagens e desvantagens qualquer que seja o lado escolhido, pesando na opção favorecida muito mais um conjunto de vivências pregressas, acesso à informação, condições socioeconômicas, etc., do que uma escolha puramente racional e lógica, coisa que é impossível per se, já que, como têm demonstrado inúmeros estudiosos das neurociências que não cabem aqui ser mencionados, dado o caráter relativamente informal dessa escrita, mente e corpo são indissociáveis e mutuamente influenciáveis, ao contrário do que quer o dualismo do filósofo francês René Descartes, polêmica essa que encerro por aqui, dada a necessidade de concisão e clareza na exposição das minhas ideias, que seriam fortemente abaladas pela introdução de citações marginais ao tema que venho tentando desenvolver, decisão que, acredito, poderá ser muito mais valiosa para quem acompanha essas mal traçadas linhas, ainda que não sejam nem linhas nem traçadas, restando a certeza de que o eminente e provável iminente leitor saberá decodificar o fino humor contido na citação desse dito popular de origem desconhecida, que como tudo que tem paternidade ou maternidade incerta, dá ensejo a diferentes narrativas sobre suas reais intenções no momento em que foram criadas, o que entrecruza o domínio da intrincada discussão filosófico-existencialista acerca do ser-no-mundo, o que por sua vez abre espaço para a inquietante observação de que a primeira e a terceira pessoas do pretérito imperfeito do indicativo do verbo ser correspondem à mesma grafia da palavra que designa, de forma geral, um período cronológico marcado por um acontecimento impactante e que determina, a partir daí, outra maneira de encarar ou lidar ou marcar as coisas do mundo sensível, sendo essa observação, que eu chamaria mesmo de estupefação frente a tal constatação, potencialmente radicalizada pelo fato de que, ao contrário de várias outras línguas, como o inglês, o francês, o holandês, o alemão, entre tantas, no português pode-se ser algo sem estar sendo esse algo, como demonstra o hipotético exemplo de uma pessoa 1 que alega que está sendo humana frente às dificuldades de sobrevivência enfrentadas pela pessoa 2, mesmo que a pessoa 1 não seja, segundo o senso comum, humana no sentido figurado, sendo, possivelmente e até prova em contrário, humana no sentido literal, o que justificaria a inclusão da expressão “pessoa humana” na categoria de altamente discutível, se considerarmos as proposições do filósofo australiano Peter Singer, que reivindica a denominação de pessoa a seres não-humanos como chimpanzés, golfinhos e porcos, preocupação contemporânea de caráter inclusivo que faz companhia a uma questão bastante mais antiga, e de interesse direto dos estudiosos do Teatro, que remonta aos paradoxos do francês e também filósofo Denis Diderot, que no século XVIII pregavam a insensibilidade e a falta de caráter como condições fundamentais para pessoas tornarem-se bons atores e atrizes, afirmações essas que não serão aqui aprofundadas sob pena de nos desviarmos demasiadamente do foco de nossa questão principal, mas aponto, como provocação final, a questão de se a pessoa humana pode ser insensível enquanto artista do palco, sem que isso inviabilize sua condição de sensível do ponto de vista da humanidade e da solidariedade, e se a falta de caráter associada às mais destacadas figuras das artes cênicas é um pressuposto valioso nas candidaturas a cargos eletivos dos poderes executivo e legislativo.
Brindemos a isso.

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