As outras de nós, por Mariliza Tavares

Acordei assustada, talvez angustiada, nem sei bem definir o sentimento, mas a sensação sim. Coração acelerado querendo sair pela boca, uma inquietude. Pulei da cama e fui apressada olhar para o aparelho quadradinho, 4 horas pontualmente, silêncio mortal, parece que o mundo petrificou.
Meu corpo está exausto, mas algo dentro de mim permanece incansável. Respiro e me pergunto: Por que estou me sentindo assim? Logo hoje, havia planejado dormir até mais tarde. É sábado e a semana foi tão difícil! A mente resolve me acordar de sobressalto, mas precisa ser exatamente nessa hora da madrugada? Quando tudo está morto, até meu corpo  paralisado, meus pensamentos chegam avassaladores com muitas perguntas. Como estão as outras de nós nesse momento? Em que situação estão as mulheres do mundo?
Penso em mulheres violentadas e afastadas de seus lares, ao serem retiradas de suas moradias pelo auxílio da força policial  e  recolocadas em casas-abrigo. Um cenário de dor, sem planejamento, sem despedidas, correndo risco de vida. Sangrando por dentro e por fora, tudo o que foi construído se desfaz, sua referência de lar desaparece. Por fim, são obrigadas a viver em outro lugar que é seu e ao mesmo tempo não é.
Preciso descansar! Meu corpo dói tanto! Prometo para minha mente que pela manhã falaremos sobre isso. E brevemente estou sonhando novamente com mulheres, uma delas parece muito comigo fisicamente, mas seus sentimentos e modo de agir me causam confusão. Era eu, mas já não era eu mesma. A imagem dessa outra se aproxima e se distancia de meus olhos, num processo de flechas brilhantes X uma imagem opaca.
Lembro de várias mulheres, avós, mães, filhas, artistas, prostitutas, mulheres de todas as etnias e de todas as idades.
Como podem elas se reconstruírem de tanta dor, medo, perda de suas referências, separações? O que sentem as outras mulheres frente essa incerteza futura?
Procuro uma música para suportar essa angústia, o peso dessa impotência, a falta de coragem. Encontro a canção de uma mulher chamada Lia, que consegue acalmar meus conturbados pensamentos do amanhecer. Essa ciranda não é minha só, ela é de todos nós. Ela é de todas nós.

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