Carta para alguém de algum lugar, por Mariana Marques

Os dias por aqui duram 24 horas. As pessoas mastigam os alimentos e são absurdamente críticas. Elas representam a vida em locais fechados e com plateia, cortam lenha para fazer fogo, dançam mexendo o corpo num ritmo frenético. Elas criam e escutam músicas. Juntam letras e formam palavras. O sol por aqui é quente demais, porém, em certas épocas ele quase não consegue esquentar. Acabei encontrando desde muito cedo quatro pessoas que estão comigo até hoje, e depois de 20 anos conheci mais uma que provavelmente ganhou um vale-vida. Entendi da pior forma o que é a culpa e sofri anos por isso. Nesse período descobri que dá para amar, sofrer por amor e até ficar doente por conta dele. Muitas vezes quando estou assistindo TV, penso como estão as coisas por aí, não me lembro de nada, esqueci completamente o que vivi. Ainda me sinto estranha quando penso em jantar e ter que mastigar o alimento, mas logo isso passa. Eu me acostumei a viver por aqui, mesmo que as pequenas coisas do cotidiano me façam lembrar de vocês. Durante a noite acordo pensando que voltei para casa, mas depois de um tempo percebo que ainda “to” aqui. Não sei bem do que, mas sinto falta de algo, parece que antes de viver aqui eu tinha um lugar permanente, não sei bem, a memória sempre falha e me complica a cabeça. Queria acreditar num deus que pudesse descomplicar meus pensamentos. Talvez a minha salvação seja apenas viver até chegar em algum lugar e depois partir. Tudo continua cada vez mais estranho e essa tal vida de agora me encoraja a viver. Quem sabe vivendo eu me distraia um pouco e me distraindo talvez eu viva mais, e então consiga chegar no ponto ideal para voltar de fato para casa. Sinto falta de vocês! Um dia volto, mas não sei quando.

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