Naquele dia feliz, por Tiago Martinelli

Caio tinha manias e acreditava em ditados populares. Era solitário. Aguardava o silêncio com o silêncio enquanto bebia um café preto requentado e fumava seu Derby vermelho lentamente. As luzes de cada apartamento ao seu redor ligavam e desligavam. Caio estava parado, sem uma expressão sequer em seu rosto. Seu pensamento dançava de um canto a outro, procurando por seu melhor dia ou qualquer outro que fosse melhor do que aquele em que estava. Veio em sua memória o dia em que tinha uns 8 anos. Acordou com o sol batendo em sua janela e com conversas vindas da cozinha. Uma voz chamou sua atenção no momento em que ouviu. Era sua avó, ele tinha certeza. Levantou da cama, colocou os chinelos e já começou a correr em direção à cozinha e a voz conhecida. Era ela, sua avó, sua amiga. Cabelos brancos, sentada, abriu os braços e o chamou. Ele havia parado a corrida quando a viu, mas logo já foi em sua direção. O abraço foi longo e de tanta emoção, Caio chorou. Sua vó perguntou o porquê do choro, e ele respondeu com a voz embargada que era saudade. Naquele dia Caio não desgrudou da avó. Brincaram, cozinharam, cochilaram e à noite, ela contou uma história e o colocou para dormir. 
O cigarro está no filtro, Caio dá a última tragada e o apaga no cinzeiro. Uma lágrima escorre do olho esquerdo dele. Um sorriso finalmente é esboçado naquela face que parecia não caber esse sentimento. Ele ri, ri muito. Procura o interruptor do abajur com desespero. A luz ilumina na estante de madeira um porta-retrato. Nele, a foto de Caio naquele dia feliz com uma roupa de super-herói e sua avó, sentados na frente da casa dela. Lembrou que esse também foi um dia feliz, um dia perfeito. Tomou seu último gole de café, pegou na prateleira abaixo do porta retrato um cd do Cazuza, colocou no aparelho de som e apertou o play. Sua dança era desajeitada, chutava o ar, descia ao chão muitas vezes, pulava e gritava ao som de Blues da PiedadeAs lágrimas escorriam do rosto de Caio, mas com um sorriso que as impediam de cair no chão, elas se misturavam à sua saliva, que ao cantar, saiam de sua boca. O telefone desperta, mas ele não ouve. No visor do aparelho que pisca estava escrito “acordar”As luzes dos apartamentos vizinhos continuavam ligando e desligando, iluminando o interior do pequeno apartamento de Caio, dando luz e sombra à sua dança seu saudosismo.

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