Tona, por Marcelo Ádams


Ela explicou que passariam cautelosamente por sobre a cerquinha baixa, cuidando bem se não havia pontas de pregos ou lascas de madeira viradas pra cima, que com coisa pontiaguda não se brinca, porque depois do corte vem o tétano, Deus o livre. As pernas de ambos eram pouco longas para ultrapassar numa única pernada o lado de cá e chegar do lado de lá do enfileirado de ripas irregulares com o pé firme no chão de terra. Ele, por ser muito jovem, filho de pais que legaram pernas apenas normais para um guri de 8 anos. Ela, assim como o neto, não fugira às características familiares – em seu caso, confirmada pela ideia fortemente disseminada de que, antigamente, as pessoas eram mais baixinhas, cabendo às próximas gerações o encompridar progressivo das pernas. Sendo assim, pensava, no futuro haveria um mundo habitado por gigantes.
Do lado de cá assentou um tijolo de seis furos, refugo de obra feita em uma das duas casas que havia no próprio terreno onde moravam (talvez a construção do banheiro de alvenaria que substituíra a “casinha” de madeira que servira de quarto de banho por muito tempo). Ela colocou o pequeno pé calçado com sandália de borracha sobre o tijolo alaranjado, do qual restavam intactos apenas quatro furos, testando se era adequado ao intento de deixá-la um pouquinho mais alta. Deslocou seu peso para apenas uma das pernas e se equilibrou ali por um momento, concluindo que serviria bem para ajudar na operação. Satisfeita com o singelo sucesso, olhou para o menino e iniciou a transposição.
Pelo combinado, seria ela a primeira a pular, como um soldado que adentra terreno inimigo com a missão de avaliar perigos e dificuldades. Feito uma batedora de comitiva presidencial, correria todos os riscos em prol do neto: estaria na vanguarda, ele no batalhão que a seguiria. Já em pé sobre o tijolo, segurou-se às tábuas ressecadas e iniciou o movimento que a levaria pro outro lado. A perna se elevava em arco, com cuidado, o tecido do vestido que resvalava expunha o membro branco e magro. Quando encerrou o movimento lento e contínuo, do lado de lá se via o pezinho a vários centímetros do chão. A ação seguinte exigia precisão e alguma força muscular, que ela buscou dentro de si durante o tempo de uma inspiração mais profunda. Com um som de “hop!” parecido com a exclamação de um acrobata em performance, ela apoiou rapidamente as duas mãos sobre a cerca, dando um pequeno impulso, durante o qual puxou a perna ficada e a trouxe pro outro lado, aterrissando ao final de tudo com um som seco, os dois pés na terra igualmente seca. O guri, seguro pelo sucesso da avó, repetiu os movimentos com agilidade bem maior – e lá estavam os dois, parados e olhando com atenção para a porta dos fundos da casa ao lado, levemente entreaberta, há três ou quatro metros de distância.
A decisão de invadir a casa fora tomada na noite anterior: dona Emília, a senhora de quase oitenta anos que morava, na companhia de um gato, na casa vizinha, não dava os ares da graça há dois dias. “Dar os ares da graça” significava aparecer no quintal dos fundos, regar as plantas, colher tempero verde ou algumas folhas de capim-cidró, ou simplesmente passear pelo terreno modesto com a satisfação de ver as coisas crescendo da terra. O gato brasina, gordo e castrado, acompanhava de perto a mulher, respondendo ao chamado de “Mico!” com uma cabeçada nas pernas eivadas de veinhas azuladas. Por dois dias, as ausências de Emília, de Mico, do som de cantoria na cozinha e da fumaça saindo da chaminé do fogão a lenha, alertaram a avó, o que foi causa direta da pulada da cerca. O convite à aventura ressoou no menino como curiosa contradição: sempre ouvira que nem inventasse de pular a cerca para especular aquele pátio bem cuidado. Nem se a bola caísse lá? Nem se a bola. Nesse caso, que chamasse a dona da casa que ela própria alcançaria o brinquedo. Entrar no terreno daquela forma infratora, sem que fosse pelo portão da frente, alto e bem chaveado, causava prazer e medo no menino, algo que o confundia, ainda que o futuro o fizesse experimentar em várias ocasiões essa mistura inusitada de sensações aparentemente inconciliáveis.
Quando empurrou a porta, tocando com a ponta dos dedos o metal da maçaneta arredondada, ouviu atrás de si o curto gemido do neto, assustado pelo rangido. O clichê intransponível de histórias de terror o fez inspirar forte, arrepiado pelo som que se acostumara a ouvir nos filmes de casa mal-assombrada ou de vampiro, mas desta vez tão próximo de si. Entraram dois passos na cozinha, antes que a avó chamasse “Emília!”, uma, duas, três vezes. O silêncio em resposta foi o estímulo para atravessarem o cômodo, passando pelo fogão a lenha, esmaltado de branco e perceptivelmente gelado naquele junho frio, que em circunstância menos intrigante estaria pelo menos morno a essa hora do dia. No limiar entre a cozinha e a sala de visitas pararam novamente, ajustando a visão à penumbra. Duas janelas venezianas deixavam entrar pouca luminosidade pelas frestas estreitas, mas apertando as pálpebras era possível vasculhar com os olhos os dois sofás e o chão de madeira: vazios de gato e de gente.
Restava conferir o único quarto, aquele no qual dormia dona Emília. À direita estava a porta, totalmente fechada, diante da qual a avó chamou pela última vez antes de abri-la. O menino estava braço com braço com ela, a mão tocando o tecido do vestido, num gesto que buscava proteção. A porta foi aberta lentamente e sem ruído, revelando um interior ainda mais escuro, a luz que vinha de fora bloqueada pela grossa cortina floreada. O miado fino e breve do gato foi a primeira coisa percebida, antes que pudessem discernir o contexto: dona Emília deitada sobre a cama de viúva, apenas a perna esquerda descendo pro chão, desalinhada, e os dedos do pé tocando a superfície da pantufa. O corpo de barriga pra cima (ou em decúbito dorsal, segundo a perícia) estava destapado, o edredom embolado na cama, sugerindo que a ação derradeira de dona Emília, a de levantar-se do leito, fora interrompida por algo mais poderoso que o desejo de movimento. A morta tinha sobre seu ventre o gato brasina, que olhava com olhos escancarados os dois intrusos. Mico miou novamente. 
           

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