Venda proibida, por Tiago Martinelli
“...Agora assiste aí de camarote, eu
sendo vendido com e sem receita...” Era uma cantoria a tarde
toda. O cabisbaixo ibuprofeno já estava cansado dessa música que vinha da
prateleira ao lado. O paracetamol debochava da caixa dele por causa da pandemia
que o impedia de ser receitado. O ibuprofeno estava parado na prateleira há dias.
Quando avistava alguém adentrando a farmácia, ele já começava sua reza diária: Pai nosso que estás na Anvisa, encapsulado
seja a vossa fórmula, venha a mim a próxima receita, seja feita nessa dosagem,
assim na febre quanto na dor... E ele só ouvia as risadas do paracetamol
ainda mais altas. Não fique assim Ibu, eu sei que você vai ser receitado em
algum momento. Aquela voz doce vinha da parte de cima das prateleiras. Era a Ive, a ivermectina que estava sendo receitada para gripe e até então pensava que
só servia para acabar com os piolhos e sarnas. Sua surpresa foi grande quando
começou a ser receitada e tentou de todas as formas acalmar o seu amigo dizendo
que logo mais eles liberariam sua venda. Ibuprofeno ainda chateado ficava
pensando em quantas pessoas estava deixando de ajudar, quando de repente a
cantoria parou. Mol havia sumido e não se sabia para onde. Era estranho pois
sempre tinha estoque dele na farmácia. Ibu ouviu então a dipirona comentar com
o xarope de guaco que acabaram os estoques de paracetamol e que ele não estava
mais sendo produzido. Ibu entrou em choque e começou a pensar que seu fim seria
trágico igual ao Mol. Não podendo ser vendido, acabaria vencendo na prateleira
e iria para o descarte sem poder realizar o seu sonho de criação, que era
ajudar alguém. O desespero foi grande e Ibu já estava a ponto de se jogar da
prateleira, quando alguém pediu a balconista: tu me vê um ibuprofeno 600mg?
Nesse momento um raio de sol entra pela janela e ilumina a caixa branca com
tarja amarela. Ele é retirado com delicadeza da prateleira, passado seu código
de barras no leitor e um bip soa no computador e ele tem a certeza de que a
venda está sendo finalizada. Despede-se rapidamente da sua amada Ive, quando é
colocado dentro de uma sacola plástica. A sua nova dona pega a sacola e a junta
com outras que já possuía. Ibu se sente realizado e no mesmo momento ouve uma
voz que interrompe seu delírio: teve sorte, mas essa noite no telejornal
nacional, vão mostrar a tua caixa. Ninguém vai mais te receitar e tu vai acabar
dentro de uma gaveta junto com o Rivotril e o Melagrião vencidos, enquanto eu,
estarei dentro da bolsa de toda população, disse o paracetamol vingativo.
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