A liberdade é azul, por Mariliza Tavares
Há algum tempo ele habitava o local, uma espécie de vidro minúsculo com uma circunferência aberta na borda superior. Formavam um belo contraste, o recipiente com sua transparência quase imperceptível e o morador do vidro dono de uma pele azul petróleo, que por meio do material em seu envolto, tornava mais evidente o seu tom azulado. Era obrigado a viver tão próximo da vidraça, que qualquer espécie de liberdade se perdia.
Às vezes ele parecia estar suspenso no ar, permanecia imóvel e pousava seu olhar no vidro por longo tempo. Em outros momentos ficava muito agitado, deslizava de um lado para outro pensando: “Não sou parte desse recipiente imóvel, sem cor, sem espaço. Não sou! Não sou! Quero voltar a ser livre!"
Naquela noite, seus pensamentos se igualavam à tempestade sem trégua que inundara o esgoto do seu condomínio, misturando-se às águas do Rio dos Sinos, nas proximidades. Era o universo conspirando a seu favor. Desceu ralo abaixo, escapando entre os dedos de sua dona como uma despedida. Foi embora. Queria ser livre para chegar ao mar. Nadava, nadava, tinha certeza que a partir daquele dia, assim como ele, a liberdade seria azul.

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