A luz de Alzira, por Tiago Martinelli

Alzira acordava com o despertador que não era seu, vinha do apartamento debaixo do dela. Caio era o morador do primeiro andar. Alzira, também como Caio, esperava o silêncio com o silêncio. Tentava se manter em total e absoluta mudez para sentir um pouco de casa cheia, por mais que não fosse a sua. No seu dia repleto de minutos de total inércia, havia 56 deles que para ela, eram os únicos aproveitáveis. Das 11:30 às 12:26 o sol entrava pela sua janela... 3 minutos antes, ela pega o seu protetor solar, abre e passa pelo seu rosto e mãos, ouviu que era importante passar nas mãos também, pois nas mãos é que a idade da mulher é percebida. A luz que entrava pela janela e preenchia um lado de seu sofá, um lugar exatamente pensado para curtir a vitamina D. As buzinas e barulhos de engrenagens dos carros que passavam na rua de seu apartamento, aliados à sensação de prazer ao ser iluminada fazia uma espécie de transe em Alzira. Ela amava sentir isso, era sua alegria diária. Só não era bom quando ela abria o aplicativo de previsão do tempo e dizia que iria chover. Hoje choveu e Alzira não se iluminou. Abriu a gaveta da cabeceira da cama e pegou sua vitamina em cápsulas. Engoliu pensando que se não pôde tomar sol, a vitamina compensa. Mesmo assim passou o protetor solar, pois ouviu que as lâmpadas também produzem raios ultravioletas. Ouviu que não pode sair de casa. Ouviu que o vizinho brigou com a mulher. Ouviu que Facebook mente. E também ouviu a sua vizinha de porta transando, e não era a voz do marido dela.
Alzira ouve quando o silêncio dá trégua.

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