Coro concreto, por Marcelo Ádams
Já ouviu
falar naquela teoria do copo meio cheio ou meio vazio? Nem sei bem se dá pra
chamar de teoria, acho que teoria tem que ser mais complexa, mais profunda, sei
lá. Não vou chamar de teoria então, melhor dizer que é uma maneira de olhar pro
mundo. Tem gente que olha pro copo e acha que ele tá meio cheio, já que tem
água até a metade. Outros vão olhar pra esse mesmo copo e dizer que é óbvio que
ele tá meio vazio, já que tem água só até o meio. Por isso que eu digo que é
uma maneira de olhar pro mundo, pois o copo é o mesmo e a água é a mesma. O que
muda é o que eu quero ver, o que eu me esforço pra ver.
Dá pra usar essa ideia, essa de que eu vejo o que eu quero
ver, pra um monte de coisas, pra vida, pra quase tudo. Por exemplo, se eu tô
saindo com alguém, e esse alguém me troca por outro alguém. O pessoal do copo
meio vazio vai dizer que foi uma puta sacanagem ter levado um pé na bunda. O
pessoal do copo meio cheio vai dizer que foi só porque você levou o pé que
conheceu um alguém muuuito melhor que o alguém antigo. Sabe como é? Há males
que vêm pro bem.
Eu tava pensando, então, que esse jeito de olhar o mundo
serve pra falar da nossa situação. Pensa num prédio de nove andares que tá
caindo aos pedaços há não sei quantos anos. Os donos são um pessoal cheio da
grana que nem mora mais no Brasil, mas que tem uma fortuna em imóveis por todo
o país. Entre as propriedades que eles têm tá esse prédio, no Centro da cidade,
que já foi usado por banco e também foi sede de sindicato patronal. O prédio
fica ali, perto de tudo. Quando a gente passava na frente e via os tapumes de
compensado tudo empenado, cobertos de cartaz de show, de pichação, não sabia
direito o que é que tinha lá pra dentro, e nem o estado em que estava o prédio.
Por fora, tava bem detonado, sujo, com vidraça quebrada de cima a baixo, com
lixo acumulado na entrada que dava pra ver pelas frestas do tapume. Aí é que
entra a história do copo.
Pra quem tem seu teto, nem que seja
lá no fim da cidade, ou numa vila
qualquer, ou num conjunto habitacional mal cuidado, olhar pr'aquele prédio de
nove andares não provocava nada, no máximo um “puta que pariu, que perigo esse
edifício”. Mas pra quem perdeu o que tinha, ou quem nunca teve um teto pra se
abrigar, pra quem já cansou de dormir a céu aberto ou debaixo de marquise ou de
viaduto, olhar pr’aquele prédio de nove andares era olhar pr’alguma coisa boa.
Uma construção de concreto, um monte de tijolo empilhado pode dar uma esperança
tão forte de que talvez aquele possa ser um lugar pra descansar um pouco da
barra diária que é não ter um lugar pra chamar de seu. Quem vê o copo meio
cheio pensa assim. Que do descaso, do que é abandonado pelos donos, pode surgir
um espaço de companheirismo, de união, de acolhimento e de luta pelo direito de
se manter com dignidade, de viver com um mínimo de conforto e tranquilidade.
Então, um belo dia, a gente entrou. Ou melhor, uma bela noite,
porque ocupação tem que fazer na madrugada, na calada da lua, pra não chamar
muita atenção. Se a polícia chega, não dá pra enfrentar, tem que desistir. O
jeito é chegar de mansinho, um grupo grande, com criança, velho, todo mundo,
quebrar parede e tapume a marretada, e se instalar o mais rápido possível por
todo o prédio. Porque depois que a gente entra, é mais difícil nos tirar. Não
que a gente resista com violência, não é isso. Ninguém é louco de colocar em
risco a vida de quem veio ocupar. Mas é que depois de entrar, a gente tem
condições de barganhar um pouco mais por um lugar decente pra gente ficar. Às
vezes, oferecem lugar provisório lá no cu do mundo, mas não é isso que a gente
quer. Nada contra quem mora no cu do mundo, mas pra quem é trabalhador e
precisa pegar duas, três conduções pra chegar no serviço, fica difícil, sobra
pouco do salário. Mas se morar no Centro, que é onde a maioria trabalha, seja
com ou sem carteira assinada, já economiza uma barbaridade.
Então não é só pensar no lugar onde se vai ficar, mas também
dar condições pra se manter. Eu conheço até gente que conseguiu uma casinha pra
morar lá no sul da zona sul, longe demais do Centro, que acabou desistindo da
casinha porque trabalhava com reciclagem e não tinha condições de ir e voltar
todo o dia pra região mais central da cidade, que é onde se encontra mais
papelão, plástico, alumínio, essas coisas que se vende pra faturar o ganha-pão.
A gente já falou bastante, mas tem mais, isso
aqui é só uma introdução. Isso aqui é uma peça de teatro, se algum distraído
ainda não tinha se dado conta. E o teatro tem essa capacidade de falar direto
com os espectadores. No teatro a gente conta histórias que podem ser bem
distantes da nossa vida cotidiana, por exemplo, dos antigos deuses gregos. Ou
falar de coisas que a gente vê acontecendo todos os dias à nossa volta. A gente
escolheu falar dessas coisas que fazem parte do nosso mundo, mas que às vezes
não percebemos, ou nem queremos perceber. Que nem o copo meio cheio ou meio
vazio.
Na
nossa peça a gente vai mostrar uns pedacinhos de várias
pessoas, que existem por aí com outros nomes, mas com histórias parecidas.
Essas pessoas vivem ou viverão em ocupações, e tentam sobreviver a todas as
dificuldades que se colocam no caminho de quem tem a coragem de lutar por seus
direitos de moradia, de resistir à pressão dos que têm mais poder,
principalmente o econômico.

Comentários
Postar um comentário