Não fale a palavra negativamente, por Fernanda Moreno
A – Estamos há mais de três horas aqui!
B – Para falar a verdade seriam duas horas e meia.
A – Que seja.
B – Ele não vem? (A dá um tapa na boca de B por falar a palavra NÃO)
A – Você pronunciou a palavra negativamente proibida.
B – Eu sei, mas eu – palavra negativamente proibida, consigo me acostumar.
A – Você – palavra negativamente proibida entende. ELE CRIOU regras e nós temos que obedecê-las.
B – MAS, eu – palavra negativamente proibida aceito.
A – Você quer continuar respirando este ar oco? Obedeça. Não há recompensa para a rebeldia. (B dá um tapa em A)
B – Você FALOU. Seu nome agora também está na lista. Há homens nos vigiando. (Falando baixo) Eles sabem de tudo e vão falar para ELE.
A – Mas foi um equívoco, um descuido, palavra negativamente proibida me acostumei. Palavra negativamente proibida, posso ter meu nome nessa lista.
B – Assim como eu, seu nome está carimbado em azul cobalto em uma folha branca que cheira a álcool e aditivos, que inalado pode trazer problemas respiratórios mortais.
A – (A entra em pânico) Eu – palavra nega... consigo respirar...
B – São sintomas da desordem. Você agora é um desordeiro. A guerra NÃO é feita de equívocos. E você foi um equivocado. Agora está aí agonizando pelo seu próprio erro. (Mesmo mal, A tenta dar um tapa em B) NÃO adianta me repreender. Os fortes se tornam artilharias, já os fracos, trincheiras.
A – Quando ELE chegar eu explico, tenho certeza que ELE entenderá. Falhas acontecem.
B – Você não precisa renunciar à sua liberdade de ilusão. (A novamente tenta repreender)
A – Por favor, pare! Você está me sufocando. (Cada vez mais sem ar) Não quero ouvir sua obstinação desenfreada. Se não queres morrer, redima-se. Não seja estúpido. (B dá vários tapas em A, por cada não falado)
B – Cada negação uma sentença.
(Ouve-se barulho de passos fortes)
B – Você está escutando? ELE está chegando e não vem sozinho. Eu disse que eles estavam nos vigiando.
A – (Começa a rezar uma oração desconstruída)
B – Isso NÃO VAI adiantar!
A – Tudo isso por sua culpa. Eu vou lhe entregar e ele perdoará os meus equívocos.
B – NÃO, NUNCA, RENEGAR, CONTESTAR, REPELIR, REPUDIAR, RENUNCIAR. (Cada vez mais o som se aproxima como se estivesse chegando)
A – O que você está fazendo?
B – Me entregando.
A – Ei, vocês que estão vindo! Eu NÃO tenho nada a ver com isso, ele é louco, louco.
B – (Rindo)
A – (Se dá conta do que falou) NÃO, NÃO, NÃO!! (Põe a mão na boca dando-lhe tapas)
B – (Rindo)
(Os passos aumentam e A tenta se esconder com muito medo)
B – (Rindo)
(Um criança aparece)
Criança – Tios, vocês teriam uma moeda para me dar? Eu tenho fome!
A e B – (Com nojo) NÃO!
Criança – Desculpe!!
(Os passos cessam, silêncio)
A – Você viu? Eles foram embora. Eles entenderam os nossos equívocos, fomos perdoados. Ele está atrasado. Estamos há mais de quatro horas aqui!
B – Para falar a verdade seriam três horas e meia.
A – Que seja.
B – Ele não vem? (A dá um tapa na boca de B por falar a palavra NÃO)
(Barulho de passos, a luz vai se apagando e eles, como se fosse um ciclo, continuam esperando).

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