Os contraditórios mundos de Luiza, por Mariliza Tavares
Nasceu no campo, em meio à liberdade, brincava com o vento, as folhas e a terra, mas o que mais gostava era de subir em árvores. Fazia delas o seu laboratório, escalava todas as que encontrava, de diferentes espécies e tamanhos. Passava a maior parte de seus dias em cima do arvoredo, lá no alto a fantasia não tinha dimensões, a casa secreta virava castelo, casa de bonecas e até palco.
Descendente de família humilde, não possuía brinquedos e desde cedo teve que desenvolver seu método próprio de brincar. Recolhia pedrinhas, botões, caixinhas de fósforos, pedacinhos de madeira e outros objetos que reciclava pelo caminho, todos subiam com ela na árvore e tornavam-se coisas espetaculares! Muitos ganhavam vida própria, graças ao imaginário de Luiza.
Durante sua juventude, precisou mudar-se para uma grande metrópole para continuar seus estudos. Sempre fora a garota descolada da escola, foi eleita a representante do Grêmio Estudantil e, mais tarde, líder comunitária do bairro onde residia. Tinha um poder mágico de convencer os outros através de sua comunicação. Jamais vou me esquecer do dia em que ela me convenceu a andar na chuva por 3 km, só para fazer xerox em um centro de cópias que utilizava papel reciclável para impressão. É... As árvores tocaram o coração de Luiza desde a infância, o oxigênio delas a fizeram voar para outros jardins, viabilizando seu reconhecimento de ativista ambiental internacional.
Nunca mais a encontrei. Após viajar pelo mundo todo, hoje vive reclusa, desacreditada das relações humanas. Os únicos diálogos que estabelece são com os pássaros em sua janela. Ela não sai de casa, pois tem medo de ser devorada pela Boca do Mundo.

Comentários
Postar um comentário