Receita antiga, por Mariana Marques

Pego uma casinha de Lego que tenho dentro do meu guarda-roupa e coloco em cima da mesa, martelo cinco vezes, misturo com cianureto e jogo dentro de uma panela. Ligo o fogo com um pedaço velho de fósforo, até tenho um fogão elétrico, mas a questão aqui é simplesmente o conceito, porque todos sabem que fósforo velho é difícil de acender, por isso pego o isqueiro, acendo o fósforo e depois o fogão. Na minha frente tem um espelho grande, onde nesse exato momento estou me olhando e falando essas bobagens enquanto a casinha de Lego está derretendo lentamente. Sorrio, não um sorriso normal, mas aquele com ar de demência, loucura, e rio dessa personagem tosca que criei, nesse lugar onde as pessoas derretem peças, ou fingem para serem fotografadas em revistas que prezam o novo. Consegue entender que isso faz sentido? 
Então me espreguiço e gosto de ver o quanto sou boa em inventar que vivo num lugar onde as pessoas vivem. Estou vivíssima, e essa sou eu decadente como sempre, tentando explicar algo que vi “online”, nesse lugar onde as pessoas morrem e são fotografadas em revistas, e que conseguem ver a loucura por trás de uma simples panela. Amo aqui, porque é um lugar inventado, eu estranhamente acabei de inventar, enquanto pego esse pedaço quente de lego derretido e deixo escorrer na minha garganta, que antes estava normal e agora queima. Será que estou enlouquecendo? Sim, e amo estar. Por fim, toda queimada, escorregando nesse caldo ardente que deixei cair no chão, deitada, agonizando de dor, sorrio com os olhos fechados, feliz em saber que agora deixo de existir, até que enfim minha sede foi saciada.

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