Rubrica, por Marcelo Ádams



(Sala ampla de apartamento, com duas grandes janelas ao fundo, uma delas aberta, deixando passar uma leve brisa, constatada pelo movimento das hélices da miniatura de um moinho de vento que está pendurado do lado de fora. A luminosidade que vem da rua é intensa. Junto às janelas, cortinas totalmente abertas de um tecido pesado, talvez um brocado em dourado. No centro da sala, com o encosto virado para as janelas, um sofá de quatro lugares, forrado em tecido cor vinho ou azul marinho, com pés torneados na forma de patas de leão. De cada um dos lados do sofá, visto frontalmente, estão mesinhas redondas em ferro batido e com tampos de mármore rosados. Sobre a mesinha da esquerda, um porta-retratos, em prata brilhante, mostra um homem e uma mulher bem vestidos, abraçados, tendo como fundo o mar azul. Ao lado do porta-retratos, uma miniatura de uma camionete vermelha Ford Pick-up dos anos 1930. A mesinha do lado direito contém outro porta-retratos, semelhante ao da mesinha à esquerda, no qual três crianças, em trajes adultos, como smoking e vestido de noite, sorriem para a câmera, tendo como fundo um ambiente que lembra um salão de festas. À direita, uma porta larga de duas folhas, fechada. Ao lado da porta, um vaso com folhagem exuberante, mais próximo do público. Na parede à esquerda, um aparador de madeira escura sobre o qual uma ou duas travessas vazias, de prata, estão colocadas. Ao fundo, à esquerda, uma porta simples, levemente entreaberta, através da qual um som difuso é ouvido. De início parece um zumbido indiscriminado, que aos poucos vai se transformando em música. Percebe-se isso pelo ritmo um tanto marcial da sonoridade. No meio do cômodo, pendurado no teto, há um lustre com pingentes de cristal, com as lâmpadas apagadas, que serão acesas apenas ao final da peça, quando o dia estiver se encaminhando para seu fim, o que será constatado pela redução progressiva da luminosidade vinda das janelas, até a quase total escuridão. Depois de um minuto desde a abertura do pano de boca de cena, pela porta entreaberta entra uma mulher de cerca de 40 anos, bem vestida, mas sem excessos, com um jornal tamanho standard em suas mãos. O volume da música que vem do cômodo ao lado aumenta assim que a porta é aberta para dar passagem à mulher. As ações seguintes, executadas por ela, têm como fundo sonoro a música, agora claramente percebida como de caráter alegremente marcial. A mulher caminha pela sala, absorta por algo que lê no jornal. Sem precisar olhar por onde caminha, com os olhos fixados no que lê, vai até o sofá e senta, próxima à mesinha da direita. Durante alguns segundos, permanece lendo, demonstrando agitação pela maneira como se ajeita seguidamente no sofá. Sem que a mulher perceba, um drone, silencioso, surge do lado de fora das janelas ao fundo. O drone entra pela janela aberta e para, exatamente embaixo do lustre. Um compartimento se abre na parte de baixo do drone, e de dentro dele surge um cano escuro, comprido, que começa a expelir uma fumaça avermelhada, que aos poucos vai tomando conta do ambiente. A mulher apenas percebe tudo isso quando a fumaça está bastante espalhada. Ela olha em volta de si, deixa o jornal ao seu lado, no sofá, parece tremer um pouco, por alguns segundos. Levanta, caminha até o proscênio, e abre a boca para falar. Tem os olhos arregalados)

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