Sexto andar, por Tiago Martinelli

Seis carros brancos. Quatro cachorros. Sete mulheres vestindo casaco preto. Onze homens de terno. Cinco carros vermelhos. Seis sinais de buzina. Uma ambulância. Essas eram as lembranças de Cátia, que esperava o seu pranto passar, sentada na escadaria do seu prédio. Cátia chorava muito e não sabia o porquê. Tentava pensar em tudo o que poderia fazer para que esse choro passasse, até mesmo contar os carros, pessoas e cachorros que passavam pela rua. Mas isso era totalmente inválido.
Braços cruzados, cabelo na frente do rosto e um sentimento de vazio. A sacola do mercado ao seu lado com quase um quilo de maçãs verdes. Cátia não gosta de maçã verde. Foi ao mercado apenas para passar o tempo e tentar se distrair. Ação que não deu resultado, ou ao menos não o resultado esperado.
Já são quase 5 horas da tarde, Cátia enfim se recompõe e toma coragem para subir ao seu apartamento. Apanha sua sacola de maçãs verdes, levanta e entra no prédio. Aperta o botão para chamar o elevador e aguarda. O elevador chega e abre a porta. Quando Cátia levanta a cabeça percebe que tem alguém no elevador. Ela entra e aperta o botão do sexto andar e aguarda a pessoa sair, mas ela não sai. Cátia levanta a cabeça e olha para o lado e percebe que a pessoa em questão é morador do prédio. A porta do elevador se fecha e somente o sexto andar está marcado para próxima parada. Cátia por um momento fica com medo. Alguns minutos de silêncio e o morador fala: - Eu só estou aqui porque precisava ficar fora de casa. Eu sou Caio e moro aqui no prédio. Cátia responde que o entende bem com um suspiro de alívio.

O elevador chega no sexto andar e a porta abre. Cátia dá uma passo e para. Os dois sem esboçar nenhum sentimento ouvem somente o silêncio. Com o mesmo pé que que dera o passo, volta e para no mesmo lugar onde estava. Olha para o lado e aperta todos os botões dos dez andares do prédio. Um sorriso aparece em sua boca, estende a mão e diz: - Prazer, eu sou Cátia, quer uma maçã? Os dois riem de forma envergonhada e a partir desse elevador, nem Caio e nem Cátia foram os mesmos.

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