As perguntas que a gente só faz em dias especiais nos textos de comemoração do Facebook, por Stefanie Loyola
Eu te encontrei em uma lancheria pra almoçar quase três horas da tarde. Meu colega começou a contar tudo que eu não falava pra ti. Você achou engraçado e até mesmo se sentiu vingada em saber que eu tava morando com um alcoólatra desagradável, enquanto teve que me aguentar com meus problemas de bebida aos dezesseis. E eu achei sinceramente que você iria julgar mais e deixar claro tudo que você via se repetindo ali. É que existe algo no entrelaçar das coisas, no entre, sabe.
Tipo as coisas que acontecem entre as frestas, entre os vãos, entre dois corpos se chocando, entre mil ideias que não fazem sentido juntas como essas que escrevo. Eu realmente acho que acontece algo no entrelaçar.
E entre eu entender como nosso amor funciona ou não, o sofrimento foi grande. Eu achava que você ia julgar mais. Mas entre-tanto você questionou "será que ele não precisa de ajuda". Eu acho que não consigo ajudar que não quer ser ajudado, mas aí entendi que isso de querer ajudar do mesmo jeito veio de você. Entre tantas outras coisas que vêm de você para mim, essa coisa de questionar, de pesquisar, de entender, veio de você.
Às vezes me sinto aliviada de ser isso que mais nos traz pra nós, que faz que realmente sejamos nós. Porque por muito tempo eu procurei e não entendi muito bem o que fazíamos ser parecidas.
Entre tantas similaridades apontadas por outros, entre eu não sendo respondida quando criança, entre eu fazendo graça falando apple e i love you pros outros acharem que você me ensinava inglês.
Será que foi isso que me faz perguntar tanto, será que foi tudo isso que me faz querer ser respondida, será que foram essas coisas que me fizeram buscar a luta por aqueles que também não recebem respostas, será que tudo isso me construiu tanto pra um lado quanto para outro? Sinceramente, às vezes eu não entendo bem.
Você me pergunta por que teve que ouvir do meu colega, e eu respondo que achei melhor não preocupar você. Tava tudo sob controle, afinal. Na verdade é que eu não aguentava mais, mas não é como se eu estivesse aguentando muita coisa. A galera é toda meio estranha, mas legal do seu jeito. Tipo como você me descreveria.
Eu acho engraçado, sabe. E esse eu acho engraçado vocês já podem perceber que é um presságio de uma reclamação. Então quer dizer que todas nossas ancestralidade estavam ligadas por razões óbvias como o questionamento e preocupação das coisas, e eu nunca percebi, nunca nas minhas perguntas pra mim mesmo, não tive essa resposta? E eu perdi todo esse tempo? Eu me sinto um pouco inconformada com isso. Então eu tento fincar o pé no agora pra não me nublar.
Você diz que já tá tarde e que precisa voltar logo antes que ele te ligue pra saber onde tá. Ainda me paga um sorvete e eu te dou um abraço. Tudo bem, mãe. Eu digo "Obrigada por ter ficado até agora, vê se vem outro dia aqui".
Na maior parte do tempo eu nem sabia que ia sentir tanto sua falta, agora eu realmente sei que a gente divide tanta coisa, o lecionar, o viver, o peso nas costas, a saudade mútua fica um pouco mais fácil de caminhar. Obrigada por tanto e por tudo, vê se vem algum dia mesmo porque eu sinto saudades suas todos os dias.

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