Imposição, por William Andrius

Eu aguardo a porteira se abrir, com o peão já montado em mim, um pássaro aterrissa em um dos meus chifres, ele é espantado pelo homem, antes de sair para a arena há barulho vindo das arquibancadas, as ondas sonoras chegam aos meus ouvidos causando um desconforto que aprendi a controlar, das suas bocas saem o som dessa palavra que decidiram pra me nomear, não é meu nome, isso não significa nada pra mim, eu não reconheço a mim mesmo por essa nomenclatura imposta. O homem ao microfone berra algumas palavras, ouço meu suposto nome, um súbito choque na minha perna é o estímulo dos humanos antes da porteira se abrir, é iniciada mais uma competição homem versus touro, o homem não resiste por três segundos, cai abaixo de mim, logo levanta e sai correndo.
Aproveito esse breve momento de liberdade para trotear, aguardo alguém vir me buscar e me levar contra vontade, é noite mas avisto pássaros voando em união no céu, abdicaria da minha força, da minha fúria, do meu tamanho, do meu peso, dos meus chifres, de qualquer coisa que eu sou para me juntar a esses seres que passam acima, distantes, eternamente inalcançáveis. Assim como eu, eles também são atrações para olhos curiosos de seres entediados de suas próprias vidas, mas ao contrário de mim, eles permanecem livres, eles voam em bando, em formato “V”, similar a uma boca, imagino que esse conjunto ri de mim e do meu encarceramento, minha atenção é desviada deles quando alguém chega com a intenção de me encaminhar de volta à minha eterna cela, fujo ao pensar em voltar, corro pra longe do homem com a corda, dois homens pulam a cerca atrás de mim, me encurralando em um triângulo, a fúria faz parte da minha natureza ou é resposta de que me apresentam? Fosse eu um pássaro, possuiria a mesma ira? Recuo para pegar impulso para um ataque. Choque. Assim como o peão procura resistir em cima de mim por 8 segundos, tento suportar a carga elétrica que em mim é descarregada por esse mesmo período de tempo. Meus olhos desistem da resistência e aos poucos encerram sua função. Escuridão.
Um pássaro do meu tamanho aterrissa no topo da arquibancada, acima de mim na hierarquia da liberdade, me olha lá de cima e fixa seus olhos em mim, ele voa e vem em minha direção, seu tamanho diminui a cada bater das suas asas, para em minha frente, com as proporções de pássaros normais, ignorando a gravidade e qualquer lógica, suas asas param de bater mas permanece ali estático, seus olhos negros fitam os meus, seus olhos e os meus são os mesmos em diferentes medidas, meu corpo perde seu controle e por conta própria a minha boca se abre, ele a adentra, se aprofunda em minha garganta, rasgando meus órgãos como se passasse por entre nuvens, nadando no vazio que existe dentro de mim, eu o sinto parar em meu peito, o bater das suas pequenas asas vão ao mesmo ritmo do meu coração, este palpita, como se eu não tivesse conhecido ou experienciado nenhum caminho da vida ainda, um organismo novo surge, um fincar interrompe a ânsia e o desespero, no meio do meu peito sinto duas fincadas paralelas, duas asas enormes rasgando as minhas costelas apontam em diagonais para o céu, acinzentadas com as suas superfícies cor de fogo, o silêncio e a tranquilidade reinam de uma forma que nunca ouvi nessa arena, como se finalmente meus pensamentos estivessem em total resolução, as asas se batem com tamanha perfeição e sintonia como se fossem minhas desde meu primeiro dia, realizo o mesmo percurso rotineiro de anos nesse grande ambiente circular, e como nessa ação que fiz a vida inteira, corro pela arena, o suficiente para as minhas patas saírem do chão, não me sinto mais pesado e flutuo ao céu.
Chego às nuvens rapidamente e não tendo ainda gozado o suficiente da liberdade, as pontas alaranjadas das asas prendem em um incêndio, alastrando-se de ponta a ponta, minhas patas enrijecem, a força da terra e da realidade me puxam ao chão, parto da liberdade às cinzas novamente, a fumaça toma conta do espaço, não enxergo nada a não ser nuvens cinzas ao meu redor, que fazem meus olhos arderem, os pressiono com força, quando os abro novamente, sinto a terra abaixo do meu pesado corpo, minhas patas desmaiadas são puxadas por pares de mãos, arrastando meu corpo pelo chão. Levado de volta à minha detenção, minha visão enuviada percebe um pássaro parado aos meus olhos, nossos batimentos cardíacos em sincronia divididos por uma grade. 

No meu sonho minha mente se torna minha arena de batalha. Eu posso ser forte como o touro cético enclausurado na arena com um furor odioso a tudo que vê na frente, ou pacífico e livre como o pássaro que passa e que lá de cima avista a tudo e todos e toma seu rumo, em paz... Em todos os momentos sou ambos. Posso ser o touro livre, no céu a voar, com o desejo de estar lá embaixo destruindo tudo com sua ira, ou o pássaro trancafiado que de lá olha para o céu e tudo que deseja é a sua liberdade.

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