Ocorrência, por Marcelo Ádams
Quebro o dedo indicador da mão esquerda com a batida da porta do carro que me deixou bem em frente ao lugar que eu queria ir. Não sei o que fazer, porque após o susto inicial da batida, seguida de um gemido meu, abafado, fico sem ação, vejo o carro seguindo em frente primeiro bem devagar, depois com velocidade, provavelmente para pegar o próximo passageiro na quadra seguinte.
Olho pra fachada do prédio, já está bem escuro, quase-noite, e de uma janela basculante no segundo andar sai uma luz forte, fluorescente fria. Perco toda vontade de entrar e olho pro dedo, já arroxeado e pulsante, mas indolor. A umas oito ou nove quadras fica o Pronto Socorro, dá pra ir caminhando? Decido que sim, porque ainda é cedo, porque o bairro não é tão perigoso, porque eu prefiro não falar com ninguém agora, porque eu tenho que pensar.
Com tantas árvores nos dois lados da calçada, a luz dos postes de eletricidade não dá conta de iluminar tudo-tão-bem-o-tempo-todo. De vez em quando, apesar de caminhar sem pressa, me detenho bem na beira de um buraco aqui, outro logo ali, talvez cavados pelas chuvas, talvez só serviço mal feito. Pulo uns e outros, quando necessário.
Na próxima esquina, um senhor parado bem no meio-fio. De costas, não parece fazer nada de especial, é o que percebo à medida que me aproximo do pequeno corpo bem agasalhado. Paro ao lado dele, olha à esquerda e à direita, confiro se nenhum carro se aproxima, para que eu possa atravessar a rua com calçamento de paralelepípedos. Meus olhos pousam no rosto do senhor. Ele, por sua vez, encaixa seu olhar exatamente no meu, ao mesmo tempo que suspira fundo e alto.
Meu impulso é perguntar “tudo bem?”, mas me reprimo ainda. Investigo um pouco mais seu rosto: olheiras saltadas, nariz grande sobre um bigode fino, boca semiaberta. Os olhos continuam fixos em mim. Pergunto um pouco depressa demais se ele precisa de alguma coisa. Ele meneia a cabeça que sim. Precisa de quê, eu pergunto sem querer saber a resposta, porque meu dedo começa a fisgar. Ele responde que nada. Associo as duas palavras, fisgar e nada, e a imagem de uma praia deserta, mas cheia de sol, salta à minha frente. Tudo bem, cuidado pra atravessar, eu digo, e atravesso. Do outro lado da rua me viro rápido e vejo o senhor, que ainda me olha. Continuo em frente.
Mais umas três quadras e eu chego. Olho pro dedo, que parece mais inchado e mais dolorido. Sou engolido pela sombra de um salso-chorão e salto sobre um buraco, dentro do qual uma garrafa de vidro desponta, oblíqua.

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