Sobre perder ou eu, tu e o tempo que não existe mais, por Stefanie Loyola


existe o farfalhar das folhas de uma palmeira, o sol penetrando sua pele lentamente e à sua frente a janela do seu vizinho fechada. A endorfina baixando lentamente, enquanto você balanga na rede. Os problemas do mundo parecem menores, baixinhos, sabe? Você olha pra laranjeira do outro vizinho que tem uma casa mal cuidada, mas um jardim com várias árvores frutíferas esplendorosas, volta e meia vejo ele no jardim, mas nunca na frente da casa. Outro dia eu vi a bananeira dele quase vindo pro meu lado do prédio, confesso que fiquei pensando será que se na calada da noite eu levar só umas, ele vai se importar?

às vezes quando eu perco coisas tipo oportunidades, dinheiro, um projeto que eu queria muito, uma pessoa, eu tento não me importar. programo minha mente para nem chegar perto do ocorrido, mesmo que em busca dele eu tenho perdido semanas, dias, horas, minutos de ansiedade que eu não posso realmente ter um resultado completo do que foi a minha espera e como ela foi no meu corpo.

eu penso de novo eu deixo de me importar?, ou só finjo que nunca existiu essa possibilidade?

o sol tá aberto e grande e o céu nunca esteve tão azul. Tento me imaginar na praia, porque a brisa tá leve e é onde eu queria estar. Faz tanto tempo que não vou à praia que tento me reconectar com toda a água que eu encontro, tomando banho, lavando a louça ou limpando a casa. Até isso eu perdi, e a paz foi junto.

tem aquele poema apaixonado da Elizabeth Bishop que ela fez sobre a Lota de Macedo. Nele, ela fala pra gente perder as coisas lentamente e com cuidado. Eu cheguei num ponto que não sei se tô cuidando mais tanto da perda, eu me preparei pra esse momento em tantos aspectos da minha vida. Que agora comigo de frente pra você enrugado e sem me reconhecer, fico pensando será que me preparei mesmo ou só fingi que nada tava acontecendo.

ela fala que chega uma hora que a gente tem que perder mais rápido e com mais critério.

eu te vi repetindo tudo, perdendo tudo.
os nomes
as pernas
os momentos
os ouvidos
os balões
as crianças
eu 
a sua mulher
a vida
e foi sem mistério

eu queria que as coisas fossem diferentes, mas fico feliz que não foram. Porque assim se tivesse sido, eu estaria perto de ti por todo esse tempo, mas tão longe daquilo que penso que sou eu. E é uma pena, queria ter te visto mais. Uma vez no ano não dá conta de reconhecer aquele que todo mundo diz ser eu em outro gênero e outra realidade.

espero que você consiga ver um céu azul com seu jardim cuidado pela vó com tanto carinho, espero que você não se sinta o branco hospitalar, e que alguém abra a janela e você possa sentir a brisa pela última vez.


eu espero que você sinta paz.

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