Vocês usam o meu nome pra falar do tufo de pelos debaixo do lábio inferior, por Marcelo Ádams
Daqui
de cima eu vejo tudo super bem, o ângulo aberto ajuda, claro. Os “mil olhos”
que vocês dizem que eu tenho na verdade são os omatídeos. Tipo, eu tenho uns
quatro mil desses, e cada um me ajuda a enxergar quase 360 graus. Isso
significa um giro completo, pra quem não entende de trigonometria. Por isso é
tão difícil me pegar, porque quando vocês estão pensando em levantar a mão eu
já tô lá do outro lado da sala. Omatídeos, vejam só. Omatídeos é uma palavra
estranha, não fui eu que inventei, eu sempre lembro de ovo, omatídeo, ovo... mas
eu peguei pra mim, assim mesmo. Não vou ficar explicando tudo, porque só quem
enxerga como eu sabe como é. Lugar de fala. Basta vocês saberem que eu enxergo
bem pra caralho. Tá, desculpa aí, já tô me perdendo em devaneios. Eu sou assim,
fazer o quê. Nasci cheio de devaneios e de omatídeos. Eu não vivi muito, comparando
com a idade do planeta, mas posso dizer que minha experiência de quase três
semanas de existência me autoriza a tirar algumas conclusões. Uma delas é que a
vida é muito curta, então a gente tem mais é que fazer o que nos faz feliz.
Pera aí que eu vou reformular a frase: a gente tem que fazer o que nos faz
feliz, sem que pra isso a gente faça menos feliz outras pessoas. Ficou bom, eu
acho: sintético e direto ao ponto. E já que eu tô agora nessa situação que eu
chamo de extrema, porque são reduzidas as chances de eu me livrar dessa merda
dessa teia, quero aproveitar pra fazer um mea
culpa: eu admito que nem sempre me
preocupei em fazer as outras pessoas felizes, mas eu garanto pra vocês que não
foi maldade minha, daquelas maldades que a gente faz só de ruim, só de
fiadaputa. É que a minha espécie é assim. É assim, a gente age mesmo por
impulso, sem pensar nem refletir, e quando eu me dava conta eu já estava
caminhando com as minhas patinhas sujas em cima de um bife, ou de uma fatia de
pão com chimia, ou na borda de um copo com cerveja. As pessoas ficam putas
quando eu faço isso, mas aí eu me lembro de uma frase do Brecht, sabe, aquele
alemão do teatro, que dizia “primeiro a barriga, depois a moral”, e me atrolho
mesmo. Então, se a gente tem que fazer o que nos faz feliz, porque a vida é curta,
pensei eu com os meus omatídeos, eu quero experimentar coisas diferentes. Já
comi de tudo... quer dizer, tudo tudo, não, porque eu só posso contar com o que
o pessoal da região onde eu moro consome – tô falando dos seres humanos –, mas
também da fauna, da flora, e do saneamento básico que tem por aqui. Porque o
que eu como está diretamente ligado ao saneamento básico. Eu nasci e me criei
num bairro de classe média humana, não tem esgoto a céu aberto, então a minha
alimentação vem do que eu encontro nas casas, mesmo. E essa avenida aqui,
especialmente, tem pouco restaurante, mas o pessoal pede muita tele-entrega. O
povo pede de tudo, comida chinesa, bauru, PF, torta, e por aí vai. Então a
minha dieta sempre foi rica e variada. Olha eu no devaneio de novo, mas foda-se
né? Vocês acham que alguém numa teia, contando os minutos pra virar papa de
aranha, como eu, vai ficar se controlando? Já passei dessa fase, aceitem que
dói menos. Vou continuar no devaneio porque, se eu não me engano, acabei de ver
uma aranha ali na ponta da teia olhando pra cá. Posso estar errado, porque eu
não tô sozinho aqui, tem um mosquito e uma joaninha na zona. A ordem do bufê
deve variar de acordo com o apetite da oito-patas ali. Mas eu vou continuar
falando. Eu comentei de como a gente é impulsiva, e foi isso que me fez parar
aqui. Eu estava lá embaixo, dando um rolê no braço dum cara, sem nenhuma
intenção por trás, quando eu vi uma fatia de presunto largada no chão, assim do
nada. Eu pensei comigo: quem é que na posse de suas faculdades mentais joga
fora uma fatia de presunto de Parma? E eu sei que é de Parma porque o cheiro é
inconfundível. Até olhei pros lados pra ver se não tinha nenhuma pessoa vegana
por ali, porque eu sei que essa gente não suporta proteína animal. Aí já construí
toda uma narrativa na minha cabeça, porque eu sou muito criativo, que essa
pessoa vegana ia comer um sanduíche feito pelo cara, mas ele se esqueceu da
veganice e colocou o presunto no pão, e aí a vegana ficou apavorada e jogou o
presunto no chão, quase vomitando... Mas no fim não tinha mais ninguém, era só
o cara mesmo. Ele é apaixonado por embutidos, isso não fazia sentido! Até
rimou. Mas a essa altura eu já estava salivando e desci que nem um louco direto
pro presunto. O cara foi muito ágil, até estranhei, mas ele pegou o chinelo de
dedo dele com uma rapidez de Usain Bolt, mirou em mim e atirou com toda a
força. Que cara rancoroso, que pessoa do mal! Ele queria acabar comigo, dava
pra ver o sangue nos olhos. Eu não tive outra escolha que não fosse sair voando
todo desengonçado, fazendo um ziguezague super feio esteticamente, mas pelo
menos me livrei da Havaianas assassina. Só que nessa de sair voando com o
coração na boca, subi demais e esbarrei nessa teia que estava aqui, escondida
em cima do marco da porta. E aqui estou. E aqui estou. E enquanto espero,
pensei que coisa louca se eu tivesse nascido nos Estados Unidos, ou na
Austrália, porque aí meu nome seria mais bonito. Porque gente como eu, lá
nesses países que falam inglês, tem o mesmo nome que o verbo voar. Eu seria uma
fly, que fly a vida toda, livre, sentindo o vento nos omatídeos e nas asas.
Aqui, vocês usam o meu nome pra falar do tufo de pelos debaixo do lábio
inferior.

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